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Teatro /// espectáculos 2009-2003

2010

O FILHO DA EUROPA

2009
O BANQUEIRO ANARQUISTA

ANTIGONA

2008
AS CRIADAS

A VELHA CASA

2007
MADE IN EDEN
FAZER BOM USO DA MORTE
ODE MARÍTIMA


2006
BURGHER KING LEAR
HISTÓRIA DE UM MENTIROSO
1. PARTO
A ENTREGA


2005
BLOOM - JARDINS EFÉMEROS
RUINAS


2004
A CHAMADA
AS ONDAS


2003
ESPECIAL NADA


O FILHO DA EUROPA
a partir de Kaspar de Peter Handke

Estreou dia 4 e 5 de Junho no FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

in: ARTEZ - Revista de las Artes Escénicas

Opinión  Escrito por: Manuel Sesma - 10 de Junho de 2010 08:10

http://www.artezblai.com/artezblai/2010061011197/filho-de-europa-joao-garcia-miguel.html

 

http://www.fitei.com/?opt=fitei&id=programa&show=422&d=1275683400

http://s373.net/continuum/?p=269
http://s373.net/continuum/

“A peça Gaspar não apresenta Gaspar como ele é ou como ele era verdadeiramente. Revela o que é possível fazer com alguém. Mostra como falando se pode forçar alguém a falar. A peça também se poderia chamar “Tortura Verbal”. Para a formalização desta tortura pede-se ao teatro que leva a peça à cena, construir de modo vísivel, por exemplo sobre o proscénio, um olho mágico visível  para todos os espectadores, que através de oscilações contínuas, indique repetidamente a intensidade tónica das frases com que se falará ao herói, sem deliberadamente desviar os espectadores do que se passa no palco. Quanto mais violentamente se defender o herói, mais violentamente será atacado, e mais numerosas serão as oscilações do olho mágico.”

 

Peter Handke in Gaspar

Esta é a primeira informação que Peter Handke nos dá acerca da sua ideia para a peça. Há algo nesta informação que de modo distorcido coincide com a imagem que criámos para o espaço cénico da peça – pois concebeu-se um instrumento tridimensional de ampliação e visualização dos ritmos e impulsos visuais e sonoros que o actor produz – que é em simultâneo um dispositivo de vigilância e um dispositivo de produção e mapeamento de territórios de expressão do corpo no espaço e do espaço do corpo. Adicionalmente o olhar do público espectador, será integrado nesse olho mágico e emergido no espectáculo. Reside,, talvez aí, nesse facto a mudança de título da peça, que nos foi sugerido por ter sido esse o cognome dado à história de Kasper Hauser – a criança abandonada que se supunha ser filho de um poderoso da época, que assim procurava ocultar o fruto de uma relação ilícita, abandonando a criança e escondendo-a numa cave por longos anos. Mais tarde criou-se também a teoria de que a história era um embuste do próprio Kasper Hauser que teria forjado a história para poder viver às custas de outrém. O filho da Europa é assim, alguém que parece ter uma história longínqua, uma raiz que, no entanto, se perdeu, pois foi abandonado e com isso desapareceu o contacto a ligação com esse passado; é também o filho da Europa um ser que é forçado a renascer, a nascer de novo uma segunda vez e terceira vez, a renascer continuadamente, forçado a aprender a falar de novo através da fala cruzada de muitas outras línguas e exemplos que lhe são impostos como modelos e formatos a seguir para se reconstruir; por outro lado ainda é um ser que forja a sua própria história – numa dependência para com os outros, uma dependência que lhe é imposta mas que também é procurada e aceite de um modo perverso no qual não deixa de estar presente um outro lado terno e humano o limite possível da sua sobrevivência física. O teatro é uma marca distintiva, um gesto constituinte e coordenador da sociedade europeia e da sua extrema dependência e necessidade de celebrações que a autorepresentem e a perpetuem. É nesse pressuposto que a ideia de um olho mágico, que promova o desenvolvimento simultâneo de um olhar subjectivo e de um olhar objectivo nos assombrou de modo marcante esta proposta de criação. O que propomos é um olhar mágico que promova a deslocação de fronteiras entre linguagens e géneros artísticos, convocando o povo para mais uma celebração – um jogo teatral cujos limites somos nós os resistentes de um mundo novo e somos nós os sobreviventes de um mundo velho.

João Garcia Miguel

Abril 2010


A tradução deste excerto é de Carlos Porto

Equipa Artística e Técnica
Texto - Peter Handke
Direcção Plástica e Encenação - João Garcia Miguel
Interpretação - Nuno Cardoso e Sara Ribeiro
Música e vídeo - How | Rui Gato
Programação interactiva áudio-visual - André Sier
Direcção técnica – Luís Bombico | Várias Cenas
Produção executiva – Solange Carvalho
Agenciamento de espectáculos - Mauro Rodrigues
Apoio à realização do espaço cénico - Rui Viola e Mantos
Fotografias e apoio gráfico – Márcio Silva
Co-Produção: JGM | FITEI | Ao Cabo Teatro
Apoio - Teatro-Cine Torres Vedras | Câmara Municipal Torres Vedras

 

O BANQUEIRO ANARQUISTA

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Este texto é um emblema paradoxal da liberdade e da guerra, que se move entre o estrabismo reaccionário e o radicalismo absurdo.
pugna pelo individualismo levado aos seus limites como forma de ultrapassagem das limitações que as estruturas colectivas e as ficções sociais
impõem.
Neste momento particular da nossa história colectiva a sua pertinência o seu sentido de humor e de ridículo, levam-nos a reflectir sobre os
caminhos que deixamos que escolham por nós e coloca a questão se há de algum modo saída.
Em termos da linguagem teatral, o que se procura ao usar este texto, é ultrapassar a dureza de um texto que é anti-teatral e nos dá um
diálogo que é quase um monologo e nos transporta para uma condição de voyeur, que escuta as conversas dos vizinhos.


À mesa de um restaurante dois amigos debatem a situação social de um deles que diz paradoxalmente que se tornou banqueiro por que é
anarquista politicamente. O absurdo da situação, a falta de teatralidade e o devaneio mental deste personagem, conduzem-nos perante um
retrato de vida do qual a maior parte dos ouvintes conhece, ou por experiência própria ou por proximidade familiar. É a evolução clássica de um
ponto da escala política, até ao seu oposto, no decorrer de uma vida, tão comum nos nossos políticos e porque não também em alguns dos mais
conhecidos membros da nossa finança e economia.
O desenrolar da história tem muitas semelhanças e reverberações com os reality shows actuais ou os programas confessionais onde se tece
a biografia pessoal em ermos mais ou menos fantasiosos.

A la table d’un restaurant, deux amis débattent sur la situation sociale de l’un d’eux qui dit, paradoxalement, qu’il est devenu banquier parce qu’il est anarchiste politiquement. L’absurde de la situation, le manque de théâtralité et la rêverie mentale de ce personnage, nous conduisent devant un portrait de vie que la majeure partie des personnes connaît soit par expérience personnelle soit par proximité familiale.
C’est l’évolution classique d’une tendance politique jusqu’à son contraire, dans le déroulement d’une vie, si commune à nos hommes politiques et pourquoi pas aussi dans certains membres des plus connus de nos finances et de notre économie.
Le déroulement de l’histoire présente beaucoup de points communs et d’échos avec les reality shows actuels ou les programmes confessionnaux où se tisse la biographie personnelle en déserts vides plus ou moins fantaisistes.

JGM Dezembro de 2009

 

Encenação – João Garcia Miguel Texto O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa
Adaptação Dramatúrgica e outros textos - João Garcia Miguel
Interpretação – Anton Skrzypiciel, Ana Rosa Abreu, Isa Araujo, João Pedro Santos e Sara Ribeiro Movimento – Anton Skrzypiciel Música Original – Steve Bird Realização Vídeo – HOW by Rui Gato
Edição e Operação Vídeo – João Faustino Edição Vídeo – Edgar AlbertoFigurinos – Lidija Kolovrat Cenografia – João Garcia Miguel, Luís Bombico e Rui Gato Assistência à encenação – Rui Viola Construção de Cenografia – Pedro Santos e Mantos Desenho de Luz – Luís Bombico Direcção Técnica – Várias Cenas Lda
Operação Legendagem – Nuno Correia Fotografia – Márcio Silva
Produção Executiva – Marta Vieira Assistência Produção – Solange Carvalho Web design - Mantos
Co-Produção – JGM | Teatro Maria Matos
Apoio - Teatro-Cine Torres Vedras | Camara Municipal Torres Vedras
Estrutura financiada - MC | Dgartes | Fundação Calouste Gulbenkian
JGM é um artista associado do Espaço do Tempo

Blog de: O Banqueiro Anarquista -

http://jgm-obanqueiroanarquista.blogspot.com

ANTIGONA

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SANGUE OU ESTUDOS DE ANTÍGONA
O que é que há de Antígona e de Ismene em cada um de nós? E em diferentes momentos da nossa vida? Como é que nos dividimos interiormente e por um momento podemos ser Antígona – a mulher corajosa, teimosa, implacável que acaba por se matar por não aceitar que as coisas mudem – ou podemos logo de seguida ser Ismene a mulher que aceita obedecer vergando-se à vontade dos poderosos? É possível estabelecer esta coexistência? Ela existe ainda que secretamente dentro de nós como uma figura apenas sonhada por revelar? Somos muitos seres em diálogo uns com os outros? Somos um caminho para uma imagem com cada vez maior definição? Ou pelo contrário somos um caminho para uma imagem que se desfaz, ruína de si mesma? Salvação e destruição, doença e cura, vírus e portador numa união incompreensível, num diálogo de vida e morte que se renova? Imagens sucessivamente fragmentando-se, multiplicando-se, desfazendo-se sucessivamente sobre a consciência que escapa, diálogos de mentes doentes, doenças que são chaves para a possibilidade de distância necessária para continuar a procurar o fim ou o sangue das coisas.
Foi ao intuir o desejo de Antígona caminhar sobre o fim das coisas, o seu desejo de ultrapassar esse fim, de chegar além  do fim das coisas, que a imagem do sangue se foi insinuando repetida e insistentemente tornando mais presente. O sangue é um princípio enigma, um fim obscuro sobre o qual estabelecemos a luz da dramaturgia poética e plástica que utilizámos. O que restou é para sentir e criar em conjunto.
João Garcia Miguel, Junho 2009

SANG - ETUDES D’ANTIGONE

Qu’est ce qu’il y a d’Antigone ou d’Ismene en chacun de nous ? Et dans des moments différents de notre vie ? Comment nous divisons-nous intérieurement et pendant un moment pouvons-nous être Antigone - la femme courageuse, têtue, implacable qui finit par se tuer pour ne pas avoir accepté que les choses changent - ou être tout de suite après être Ismene, la femme qui accepte d’obéir en se pliant à la volonté des tout-puissants ? Est-il possible d’établir cette coexistence ? Existe-t-elle, même si secrètement, à l’intérieur de nous comme une figure à peine rêvée, à révéler ? Sommes-nous plusieurs êtres en dialogue les uns avec les autres ? Sommes-nous un chemin vers une image présentant chaque fois une plus grande définition ? Ou au contraire sommes-nous un chemin vers une image qui se défait, ruine d’elle-même ? Salvation et destruction, maladie et remède, virus et porteur d’une union incompréhensible, dans un dialogue de vie et de mort qui se rénove ? Des images qui successivement se fragmentent, se multiplient, se défont successivement sur la  conscience qui fuit, dialogues d’esprits malades, maladies qui sont des clés pour la possibilité de distance nécessaire pour continuer à rechercher la fin des choses. C’est ainsi, à l’intuition, que le désir d’Antigone marche vers la fin des choses, son désir de dépasser cette fin, d’arriver au-delà de la fin des choses, que l’image du sang s’est immiscée de façon répétitive et insistante, devenant chaque fois plus présente. Le sang est un début énigmatique, une fin obscure sur laquelle nous établissons la lumière de la dramaturgie poétique et plastique que nous utilisons. Ce qui reste est
pour sentir etcréer ensemble.
João Garcia Miguel, Juin 2009

 

Encenação: João Garcia Miguel Texto: a partir de Antígona de Sófocles
Interpretação: Isa Araújo, João Pedro Santos, Rogério Vieira e Sara RibeiroApoio à encenação: Rui Viola
Figurinos: Lidija Kolovrat Música Original: Rui Lima e Sérgio Martins Vídeo: HOW (HorseOnWheels) by Rui Gato
Assistente Vídeo: Rúben Santos Desenho de Luz: Luís Bombico Fotografia: Miguel Nicolau Fotografia de cena: Márcio Silva Design Gráfico e Legendas: Nuno Correia Apoio ao espaço cénico e Web Site: Mantos Direcção Técnica e operação: Várias Cenas Lda.
Produção Executiva: Marta Vieira Gestão de Projectos: Filipa Hora Bilheteira: Laura Lamas Co-produção: JGM  | Rui Viola
Apoio: Teatro da Comuna |Teatro-Cine Torres Vedras | Teatro da Trindade/ Fundação Inatel
Estrutura Financiada: MC/ DGArtes / Fundação Calouste Gulbenkian
JGM é artista associado do Espaço do Tempo
Espectáculo inserido no programa de estágios profissionais entre JGM e ESAD

 

 

AS CRIADASascriadas

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(…) As criadas de João Garcia Miguel são toda uma outra história. A matriz do espectáculo é intra-teatral e problematiza essencialmente questões de linguagem e de comunicação nas artes. Afasta-se legantemente das questões sociais e/ou filosóficas convocadas pelo texto para se instalar confortavelmente na dimensão ritualista e cerimonial da dramaturgia de Genet. Trata-se com efeito de uma actualização compreensível até porque o tema apresentado dificilmente criará alguma empatia com o espectador actual; e é tanto mais compreensível na medida em que coloca o texto de Genet no centro de uma discussão em curso na prática
cénica contemporânea sobre questões de representação do discurso, sobre o corpo do actor, sobre a noção de personagem, e, aqui em especial, sobre género e identidade. Desde logo, a escolha por três intérpretes masculinos (Miguel Borges: Claire; Anton Skrzypiciel: Solange; João Garcia Miguel: Madame) provoca um afastamento de uma leitura em que os referentes reais são mais visíveis para se colocar no campo da reflexão sobre a identidade e o género.(…)

Ficha artística
Encenação João Garcia Miguel
Tradução e adaptação do texto João Garcia Miguel a partir de Les Bonnes de Jean Genet Interpretação Anton Skrzypiciel, Miguel Borges e João Garcia Miguel Música Rui Lima e Sérgio Martins Figurinos Ana Luena Desenho de Luz e Direcção Técnica Luís Bombico Realização Vídeo Edgar Alberto Apoio ao Espaço Cénico Mantos
Edição e Operação Vídeo e Fotografia Miguel Nicolau Produção Executiva Marta Vieira Registo Documental Raquel Freire Assistente de Figurinos Catarina Felgueiras Operação de Legendagem Nuno Correia
Residência artística O Espaço do Tempo Convento da Saudação
Co – Produção João Garcia Miguel e Fundação Centro Cultural de Belém
Estrutura Financiada Ministério da Cultura Direcção-Geral das Artes e Fundação Calouste Gulbenkian
João Garcia Miguel é um artista associado do Espaço do Tempo

Blog de: As Criadas - http://residenciadascriadas.blogspot.com/

 

A VELHA CASA avelhacasa

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Por vezes temos de nos deslocar de nós mesmos procurando exactamente o oposto daquilo que a lógica vigente se nos propõe. Grotowski dizia que o Teatro do Futuro seria feito em espaços familiares, numa proximidade que colocaria de novo em confronto os seres e as almas. Por muitas vezes se me tem colado esta ideia ao longo do processo de trabalho deste espectáculo. Não foi uma premeditação inicial mas um encontro ao longo do caminho. O que aqui, agora apresentamos, tem algo desse aspecto familiar e vai contra alguns dos cânones mais estabelecidos do teatro que é a separação entre espectador e actor. Temos pensado nisto, falado sobre isto, e pensamos que o estamos a fazer por alguma razão que nem compreendemos muito bem, mas que nos faz algum sentido. Falta-nos a vossa opinião. Pedimos que compartilhem connosco aquilo que sentiram e pensaram ao longo do vosso processo de construção do espectáculo, pois ele só se completa coma vossa participação.
João Garcia Miguel

Ficha artistica
Texto: Luiz Pacheco
Encenação: João Garcia Miguel
Espaço Cénico: Rui Viola
Interpretes: Ana Santos, Isa Araújo, João Pedro Santos, Rosa Abreu, Sara Ribeiro.
Apoio Técnico: Daniel Coimbra
Produção Executiva: Marta Vieira
Co-Produção: JGM / FIAR
Apoio: Junta de Freguesia de Santo Estevão e Galeria Perve / Encontro de Arte Gobal
JGM é um estrutura financiada pelo Ministério da Cultura e DGArtes
João Garcia Miguel é um artista associado do Espaço do Tempo

Blog de: A Velha Casa - http://avelhacasa.blogspot.com/

 

MADE IN EDEN – an ODE to my dead friendsmadeineden

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A velocidade tornou-se uma obsessão. Sinto no entanto os seus efeitos como um desafio, um sabor que se espraia pelo corpo lentamente, como um animal que se espreguiça por dentro de outro animal. Um ocupante desejado e estranho em simultâneo, que se desdobra continuamente e pronuncia um monologo incessante. Vozes soltas à solta dentro de um corpo. Vozes desordem que lutam por uma sombra, por uma parede onde ecoar. Aos poucos outros ocupantes vão perdendo o medo levantam-se dos escombros sacodem o pó e falam a medo primeiro, com alegria depois, a surpresa de estarem vivos a que se sucede o desejo infantil de tudo experimentar, de tudo querer, de tudo destruir. As pedras substituem as palavras e os risos são facas e carícias, cortam e chocam, deixam passar a corrente, golfadas pequenas, pontapés e pelos eriçados. A Guerra começou aonde?

La vitesse est devenue une obsession. Je ressens pourtant ses effets comme un défi, une saveur qui se diffuse dans le corps lentement, comme un animal qui s’étire à l’intérieur d’un autre animal. Un occupant désiré et étranger en meme temps, qui se déplie continuellement et prononce un monologue incessant.
Des voix libres en vrac à l’intérieur d’un corps. Des voix en désordre qui luttent pour une ombre, pour un mur contre lequel faire écho. Peu à peu, d’autres occupants perdent leur peur, se relèvent des décombres, secouent la poussière et parlent d’abord avec peur, avec joie ensuite, de la surprise d’être vivants, à laquelle succède le désir enfantin de tout expérimenter, de tout vouloir, de tout détruire.
Les pierres substituent les paroles, et les rires sont des couteaux et des caresses, coupent et choquent, laissent passer le courant, par petits jets, coups de pied et poils hérissés.
Où a commencé la guerre?

João Garcia Miguel, Setembro 2007

Ficha artistica
Encenação e Dramaturgia: João Garcia Miguel
Coaching: Miguel Moreira
Texto – a partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal
Interpretação: Luís Guerra e Sara de Castro
Cenografia: Mantos e Pedro Santos
Adereços: Jorge Sacadura
Figurinos: Miguel Moreira
Música ao vivo: Sérgio Martins e Rui Lima
Fotografia: Miguel Nicolau
Grafismo e Video animação: Sofia Pimentão
Edição Video: Edgar Alberto
Direcção Técnica: João Cachulo
Produção Executiva: Marta Vieira
Co-Produção: JGM, Útero, O Bando e O Espaço do Tempo
Apoio: Teatro da Politécnica, Teatro Nacional D.Maria II e Casa D’Os Dias da Água
Residência Artística: Convento da Saudação em Montemor-o-Novo
João Garcia Miguel é artista associado de O Espaço do Tempo e companhia residente da Casa D’Os Dias da Água.
Estrutura Financiada por:Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes e Fundação Calouste Gulbenkian
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Blogs de: Made In Eden - http://made-in-eden.blogspot.com/

http://manifestos-estilhacos.blogspot.com/


FAZER BOM USO DA MORTEbomusodamorte

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Normalmente deixamos que a morte venha ter connosco.
Por preguiça, por medo, por falta de tempo ou de jeito, por falta de paciência, porque temos mesmo muito mais que fazer, a morte que se foda, quando chegar que suba pelas paredes e que não nos chateie e de preferência que venha a horas decentes e o mais tarde possível.
A morte é uma merda que ninguém quer e por isso ela mesma a morte faz se convidada e aparece assim-assim como uma inevitabilidade. Mas pode alguém fazer bom uso disso e usar a morte como uma forma de fazer dinheiro e conseguir transformar aquilo que ninguém quer nem para mandar para o lixo, e fazer bom uso dela?
Podemos fazer bom uso da nossa morte para o serviço de quem?
Podemos nem sequer pensar nisso e ter sorte e a morte cair morta aos nossos pés. Podemos dormir com a morte na garganta e acordar com ela enroscada nos pés? Podemos não morrer fazendo uma máquina que mantenha o corpo sempre em transformação e não deixar que a morte o pára de se modificar? a morte é uma mentira? Morte à morte e a quem a apoiar! Podemos matar-nos antes de morrermos?
Podemos pensar que a morte não dura sempre, a morte não dura para sempre como a vida e o tempo, ou podemos pensar que não temos vida para morrer, que não temos ainda uma vida suficientemente vivida para podermos dar-nos ao luxo de morrer? E podemos morrer de cócoras ou morrer de pé ou morrer em cima de uma nuvem, ou morrer esmagados por uma pedra que cai do céu, podemos morrer debaixo de um lençol, podemos morrer em cima de um alfinete, podemos morrer com escamas nos pés, podemos mudar de cor ao morrer, podemos morrer e fazer um bom uso da morte.
Vamos fazer uma peça de teatro ou lá o que isso é a partir de um texto de Pasolini que nos deu umas ideias sobre a morte e os gajos que querem ou que são mesmo sem querer qualquer coisas mais que apenas uns animais e que podem ou que conseguem por vezes sem querer ou por querer olhar a morte de lado e depois com mais um esforço pequenino e minúsculo olhar a morte de obliquo e depois olhar a morte por detrás pelo rabo e depois olhar para si mesmo e perceber que aquele sinal que ali começa a crescer não é o pecado venial mas a morte a alastrar e que até nisso a morte deles é única e diferente das mortes que vêm nos livros e das mortes que todos os outros morreram até hoje
A pensar sobre a morte e as mil e uma maneiras de fazer um bom e um mau uso da morte....
Ajudem-me por favor a morrer com jeitinho....
Ajudem-me a matar com carinho e amor pelo próximo que vai morrer
Ajudem-me por favor que morro e nem dou conta disso
Ajudem-me mas é o caralho que vos foda a todos
Eu não quero a vossa morte para nada que cheira mal que se farta e eu tenho o nariz muito sensível e preciso de cheirar a minha morte quando ela vier
Tirem me daqui a vossa morte por favor que eu peço vos com jeito que vão morrer longe para lá dos subúrbios tão longe que nunca mais cá cheguem pois o vosso longe é tão perto do fim que nem transportes lá existem nem o governo quer saber que terra é essa onde se faz bom uso da morte e as farmacêuticas fizeram um cordão sanitário de segurança em volta da vossa terra de mortas e de mortos.
Morram bem por favor.
João Garcia Miguel

 Ficha artistica
Colaboração Artística na Encenação | João Garcia Miguel e Miguel Borges
Interpretação | Ana Rosa Abreu e Daniel Coimbra
Música ao vivo, Grafismo e Fotografia | Miguel Nicolau
Fotografia de espectáculo | Libório
Direcção Técnica | Ricardo Pimentel
Produção Executiva | Marta Vieira
Web Design | Mantos
Co-produção | João Garcia Miguel e Casa D’Os Dias da Água
João Garcia Miguel é um artista associado do Espaço do Tempo e companhia residente da Casa D’Os Dias da Água

Blog de: Fazer Bom Uso Da Morte -

http://fazerbomusodamorte.blogspot.com/

 

ODE MARÍTIMAodemaritima

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Ode Marítima não é um texto dramático no sentido em que não tem uma acção que siga a regra do texto teatral. Nem personagens. Nem acção. Mas é um texto com uma estética implícita, precisa, quase geométrica, intensa, reveladora. Interessa, portanto, que nos interroguemos sobre como deduzir regras de composição e, também, sobre como abordar a construção de um nexo elocutório que, na sua simplicidade, represente o texto mais como um momento em que ele se produz como entidade-viva do que como um discurso normativo sobre a forma do texto poético. A associação íntima inteligência|voz é um retomar da questão do próprio fundamento da linguagem, mas aqui desviada para o fundamento da estética, entendida num sentido lato, não restrito à ideia de forma visual. A Ode Marítima masteriza a relação entre ideia e expressão. A escolha de cada palavra, as sequências, os ritmos, as sonoridades - ou os resultados sónicos de tudo isso, que são o que realmente existe, o que realmente chega ao espectador, ou ouvinte, ou o-outro-que-assiste, a testemunha.
Um actor é um especialista em dar corpo às palavras, em revelar os seus sentidos. O seu trabalho começa na leitura, nas leituras, na maceração das palavras e dos seus sons e articulações e progride até que o texto se revela como entidade-coisa independente e segura. É este trabalho que nos faz acreditar que talvez toda esta construção possa prolongar-se numa existência oblíqua, num artefacto cénico igualmente fingidor, impreciso e imaterial.

Alberto Lopes

Ficha artistica
Direcção, Dramaturgia e Som.   Alberto Lopes
Interpretação.   João Garcia Miguel
Luz.   Alexandre Coelho
Fotografia de cena.   Márcio Silva
Design Gráfico.   grandecena.com
Web Site.   Mantos
Produção Executiva.   Marta Vieira
Assistência de Produção.   Ana Lamim
Co-Produção.   João Garcia Miguel e Casa d´Os Dias da Água
João Garcia Miguel é um artista associado do Espaço do Tempo

Blog de: Ode Marítima - http://ode-maritima.blogspot.com/

 

BURGHER KING LEAR

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O rei está louco! O rei não sabe para onde nos leva! Cruéis tempos se avizinham! Houve um tempo em que o rei matava todos com a sua espada! Mas agora o rei não tem força para a levantar! O rei está velho! O rei vai morrer! O rei não quer morrer! Que o rei morra depressa! O rei partiu a sua coroa ao meio e abandonou o castelo! O rei está louco! O rei não sabe para onde vai! O rei não quer ser rei! Cruéis tempos se avizinham! O rei quer morrer! kinglear
Traduzi e esquartejei o texto de Shakespeare criando uma versão bilingue para dois actores, um australiano e um português. Trabalhei ao mínimo o que me pareceu substancial: a história do pai e das suas três filhas! A história de um homem que por um acaso dos homens é rei; a história de um rei que se sente velho e quer voltar a ser homem! A história de um homem que pede às suas filhas que lhe digam qual delas o ama mais! Em troca da sua confissão dar-lhes-á um terço do seu reino.
Se as duas primeiras, movidas pela ambição, lhe oferecem uma definição canónica; a sua preferida não entra no jogo pois um tão cavado amor não é descritível. Do equívoco que tão pouco convencional resposta geraabre-se uma porta imensa, deixando sair incontroláveis forças ocultas, que enlouquecem e destroem tudo por onde passam.
Realcei a luta pela sobrevivência e o carácter frágil dos personagens, perante essas forças que vêm de dentro de cada um deles; a luta trágica que se desenrola por dentro e por fora, que os conduz à cegueira e à loucura, acabando por se matarem uns aos outros, e por fim matarem-se a si próprios, como a única saída possível para apaziguar as forças destruidoras desencadeadas.
Mais uma vez, aproveito para falar do tempo, aliás dos tempos, da transformação e da metamorfose; guardo para mim a imagem de um homem criança numa praia ao anoitecer que tenta lançar um papagaio vermelho e branco que cai repetidamente. Ao recolher o papagaio, o homem fica com um novelo de fio embaralhado nas mãos, que entre o desespero e a clarividência procura desembaraçar e estender no chão. Por vezes o fio parte-se e o homem procura atar as pontas quebradas. As suas mãos tremem de frio e medo, o fio vai-se enleando numa teia que arrasta consigo pedaços de plantas mortas, areia, agua, detritos, restos de papéis. O homem pela praia, primeiro de pé, depois dobrado, de gatas, rastejando, paralelamente ao mar, até desaparecer transformando-se numa neblina que cobre a areia e o mar até se desfazer no escuro da noite.
O encanto de trabalhar um texto destes, prende-se com o desafio, com a quantidade de ressonâncias que se despoletam, com a descoberta que se faz por nós mesmos. Espero encontrar um caminho que possa agora partilhar com o publico, um caminho que permita reencontramo-nos com estes homens extintos, saídos de uma época que não existe mais e reconhecer aquilo que nos deixaram em herança.
A alteração do título tem uma dupla intenção irónica e crítica, porque manipulamos e transforma-mos o texto de Shakespeare como se fosse um hamburger; em simultâneo trabalhamos a dimensão de homem comum e cidadão, que o rei apresenta, o abandono das suas responsabilidades de governação e a relação com as suas filhas. A peça acabou por se tornar um ser diferente daquele a partir do qual foi gerado, acentuando a contemporaneidade do texto e a temática que entrecruza o acaso e as nossas paixões.

Le roi est fou! Le roi ne sait pas vers où il nous mène ! Des temps cruels s’approchent ! Il y eut un temps où le roi tuait tout le monde avec son épée !
Mais aujourd’hui le roi n’a pas de force pour la lever ! Le roi est vieux ! Le roi va mourir ! Le roi ne veut pas mourir ! Que le roi meure vite ! Le roi a cassé sa couronne au milieu et a abandonné le château ! Le roi est fou ! Le roi ne sait pas où il va ! Le roi ne veut pas être roi ! Des temps cruels s’approchent ! Le roi veut mourir !
J’ai traduis et écartelé le texte de Skakespeare, créant une version bilingue pour deux acteurs, un australien et un portugais. J’ai travaillé avec le minimum me paraissant vital : l’histoire du père et de ses trois filles! L’histoire d’un homme qui par le hasard des hommes est roi ; l’histoire d’un roi qui se sent vieux et veut redevenir homme ! L’histoire d’un homme qui demande à ses filles qu’elles lui disent laquelle d’entre elles l’aime le plus ! En échange de leur confession il leur donnera un tiers de son royaume. Si les deux premières, mues par l’ambition, lui offrent une définition canonique, sa préférée n’entre pas dans le jeu puisque un amour creusé si profondément n’est pas descriptible. De l’équivoque que génère une réponse si peu conventionnelle, s’ouvre une porte immense laissant sortir des forces occultes incontrôlables, qui rendent fou et détruisent tout sur leur passage.
J’ai mis en évidence la lutte pour survivre et le caractère fragile des personnages, face à ces forces qui viennent de l’intérieur de chacun d’entre eux, la lutte tragique qui se déroule au-dedans et au-dehors, qui les conduit à la cécité et à la folie, finissant par se tuer les uns les autres, et à la fin par se tuer eux-mêmes, comme seule issue possible pour pacifier les forces destructrices désenchantées.
Encore une fois, j’en profite pour parler du temps, ou plutôt des temps, de transformation et de métamorphose, je garde pour moi l’image d’un homme enfant sur une plage où la nuit tombe qui tente lancer un perroquet blanc et rouge qui tombe répétitivement. En recueillant le perroquet, l’homme reste avec une bobine de fil emmêlée dans les mains, qu’entre désespoir et clairvoyance il cherche à démêler et à étendre sur le sol. Quelquefois, le fil se casse et l’homme essaye d’attacher les bouts cassés. Ses mains tremblent de froid et de peur, le fil s’enchevêtre dans une toile qui traîne des morceaux de plantes mortes, de sable, d’eau, de débris, de restes de papiers.
L’homme sur la plage, d’abord debout, puis plié, à quatre pattes, rampant, parallèlement à la mer, jusqu’à disparaître en se transformant en une brume recouvrant le sable et la mer jusqu’à se dissoudre dans l’obscurité de la nuit.
L’enchantement de travailler un texte comme celui-ci représente un défi, avec la quantité de résonnances qui explosent avec la découverte qui se fait par nousmêmes.
J’espère trouver un chemin que je puisse maintenant partager avec le public, un chemin qui permette de nous rencontrer à nouveau avec ces homes éteints, sortis d’une époque qui n’existe plus, et reconnaître ce qu’ils nous ont laissé comme héritage. Le changement de titre présente une double intention ironique et critique, parce que nous manipulons et transformons le texte de Shakespeare comme s’il s’agissait d’un hamburger, en simultané nous travaillons la dimension de l’homme commun et citoyen que le roi représente, l’abandon de ses responsabilités de gouverne et la relation avec ses filles. La pièce finit par devenir un être différent de celui à partir duquel elle fut générée, accentuant le contemporain du texte et la thématique qui entrelace le hasard et les passions.


João Garcia Miguel

 

Ficha artistica
Direcção e Encenação: João Garcia Miguel
Tradução e Adaptação do texto: João Garcia Miguel, a partir de King Lear de William Shakespeare
Interpretação: Anton Skrzypiciel e Miguel Borges
Cenografia e Figurinos: Ana Luena
Caracterização: Jorge Bragada
Desenho de luz e direcção técnica: Mário Bessa
Operação de Luz e Montagem: Daniel Verdades
Operação de Legendagem e Montagem: António J.Oliveira
Música: Rui Lima e Sérgio Martins
Design Gráfico: Paulo Pires
Web site: Mantos
Vídeo: Jaime Gonçalves
Produção Executiva: Marta Vieira
Assistência de Produção: Ana Lamim
Co-Produção: JGM e Espaço do Tempo e Casa D’Os Dias da Água
Acolhimento: Casa D’Os Dias da Água
Residência Artística: Convento da Saudação em Montemor-o-Novo

Blogs de: Burgher King Lear -

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HISTÓRIA DE UM MENTIROSO
Inventámos o amor para que a vida seja mais do que apenas uma existência confinada a nós mesmos. Dizer isto é uma mera banalidade, uma formalidade, mas o óbvio existe para que alguém o diga. Somos fruto daquilo que alguém pensa de nós, um outro qualquer, um deus talvez? Ao trabalhar sobre Ibsen aprendi muitas coisas que julgava já saber; aprendi a importância de compreender que vivo numa constante ilusão, que todos os dias da minha vida julguei desvelar, contudo ela ergue-se sem cessar na minha relação com o mundo e nos olhos dos outros. Para a frente ou para trás é sempre a mesma distancia, para dentro ou para fora o caminho é sempre estreito. A vida é uma grande curva e nós seguimos sempre em frente.
Para a interpretação deste trabalho, convidei dois músicos, porque desejo construir uma peça musical, onde a narrativa, a poesia e a música se vão confrontar. Consigo também antecipar, o prazer de retomar a construção artesanal e infantil do espaço, que funcionará como uma casa de surpresas, ou quarto de brinquedos. Um espaço que suporte o desenrolar da vida do personagem de Ibsen, Peer Gynt na sua viagem ao encontro de si mesmo, procurando evitar que a sua alma se dilua num monte de lixo.

Ficha artistica
Encenação: João Garcia Miguel
Texto: João Garcia Miguel, a partir de Peer Gynt de Henrik Ibsen
Interpretação e Música: Rui Lima e Sérgio Martins
Cenografia: Mantos
Figurinos: Alexandra Moura
Vídeo: Nave
Direcção de Produção: Maria João Fontainhas
Produção Executiva: Catarina Nevesdias e Marta Vieira
Desenho de Luz e Som: André Rabaça
Fotografia e Design Gráfico: Ana Lúcia Cruz
Secretariado de Produção: Cláudia Gomes
Montagem: Pedro Tomé
Apoio: Casa d’Os Dias da Água
Co-Produção: JGM e Companhia de Teatro de Sintra
O João Garcia Miguel é artista associado do Espaço do Tempo

Blogs de: História de Um Mentiroso

http://historia-de-um-mentiroso.blogspot.com/

http://o-espiao-de-deus.blogspot.com/

 

1.PARTO parto
Uma peça que tem por base o desejo de sete personagens de ficção se tornarem em seres reais de carne e osso com uma vida própria não confinada às páginas de um livro. São personagens extraídos de A Ilha dos Mortos (O Morto), de O Sonho (o Oficial e Inês a Filha de Indra), de A Menina Júlia (Júlia), de A Dança dos Mortos (Alice) e de O Pelicano (Frederick e Gerda), cujo autor é August Strindberg, que engendram entre si o plano de fazer renascer o seu autor, de modo a poderem regressar ao mundo. Estão encerrados numa casa que se encontra em queda, uma casa na qual se abrem e fecham buracos, que são janelas para o passado e o futuro. Um deles oferece-se para dar à luz, num universo onde todos querem sair para a luz, num acto de amor extremo. Mas no final o amor chega atrasado e é tomada por um vadio. Dois polícias encarregues de defender os homens dos seus desejos e de impedir que eles se matem uns aos outros espancam-no e expulsam-no do jardim das delícias. Mas como o amor é um sujeitinho teimoso acaba por enfeitiçar os policias que se apaixonam um pelo outro.

Projecto Strindberg / 1. PARTO

Esta peça surge no âmbito do 4º ano da Licenciatura em Teatro da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, correspondendo a um resultado final independente.
O grupo é composto por alunos que, dentro deste processo se juntaram e dirigiram um convite a João Garcia Miguel para a encenação e direcção artística.
Além disto, o grupo foi complementado com vários convidados, de forma a concretizar este projecto nas suas várias vertentes (música, fotografia, vídeo, produção, etc.).
A sua realização depende directamente de critérios de exigência profissionais e artísticos que ultrapassam em muito o seu objectivo inicial e portanto pretendemos dar-lhe continuação, apresentando-o noutros locais para além do local onde se realizou a estreia (Teatro Helena Sá e Costa, Porto).

Ficha artistica
Encenação e dramaturgia – João Garcia Miguel
Texto a partir de Strindberg de João Garcia Miguel e Luís Vieira
Assistência de encenação e movimento – Luciano Amarelo
Assistência pessoal e produção – Bárbara Andrez
Interpretação – Ana Margarida Carvalho, Inês Leite, Inês Mariana Moitas, José Eduardo Silva, José Nunes, Luís Félix, Sílvia Correia
Design de cenografia, adereços e caracterização – Ana Novais
Design de Figurinos – Cristiana Lopes
Design de luz – Francisco Tavares Teles
Música original – Rui Lima, Sérgio Martins
Design gráfico – Raquel Balsa
Colaboração artística – João Abel
Fotografia – Ana Lúcia Cruz
Vídeo documentário – Ana Lúcia Cruz e Rui Lima
Apoios – Espaço do Tempo, Oficinas do Convento

 

A ENTREGAaentrega
As chaves
A peça fala de chaves. De homens e mulheres que funcionam como chaves, para a vida, para o amor, para um poema e para a morte. Fala da construção de um homem pequenino que servirá de chave para que outros homens e mulheres possam entrar num outro nível da realidade. Sonham-no, constroem-no, dão-lhe um corpo e uma vida que ele acaba por recusar ou da qual se retira imperceptivelmente.
É um mundo onde as pessoas se encontram e se aceitam, de um modo que não é suposto, e onde tudo é consequência, pois estas antecipam as causas. O que é a vida, pergunta o pequenino? Matar dragões, libertar princesas e derrotar lobisomens? É isso que é a vida! Aqui neste mundo somos todos hipersensíveis, pessoas que apanham tudo o que se perdeu e não deixamos escapar nada. Tudo tem tanto sentido, que tanto faz estarmos ou começarmos, num qualquer lado ou momento; é sempre diferente. Tudo parece lógico, desde que seja ou esteja exterior a nós, e não há permanente, nem um autocarro cheio de mensagens a chegar.

Ficha artistica
Texto - João Garcia Miguel e Luís Vieira;
Encenação - João Garcia Miguel;
Assistência de Encenação - Tiago Matias;
Cenografia - MANTOS;
Figurinos - criação colectiva;
Interpretação - Anabela Teixeira, Cristina Basílio, Luciano Amarelo e Nuno Correia Pinto;
Desenho de Luz e Imagem Gráfica - André Rabaça
Fotografia - André Rabaça e João Garcia Miguel
Direcção de Produção - Maria João Fontaínhas
Produção Executiva - Catarina Nevesdias e Marta Vieira Secretariado de Produção - Cláudia Gomes e Laurinda Andrade
Operação de Luz e Som - André Rabaça
Direcção Técnica e Montagem - Nuno Correia Pinto
Montagem - André Rabaça e Pedro Tomé
Bilheteira - Paula Malhado
Limpeza - Graça Branco

 

 

jardinefemerosBLOOM-GARDEN - instalação memorial 1
Dois seres que na procura da plenitude se querem espelhos; homens espelhos que reflectem árvores (homens sem função nem órgãos que lhe justifiquem a humanidade) criam um belo e brilhante jardim onde podem viver na perfeição em comunhão com uma natureza imperfeita.
Dois palhaços/Joguetes criadores da perfeição.
Ei-los! Belas árvores andarilhos contentes da vida e da morte, senhores e ditadores no seu jardim.

BLOOM-TREE - instalação memorial 2
Quando uma árvore de memória se ilumina o melhor é refugiarmo-nos na sua sombra, pois a memória é genealógica e tende a dar frutos, que se de conhecimentos não os queremos ver, menos ainda comer.
Talvez nos caiam em cima, segundo Newton, mas então esperemos que já estejam podres e provoquem apenas uma pequena nódoa.
Nada que uma amena cavaqueira à sombra da frondosa árvore não desvaneça…porque é preferível a sombra à luz directa que nos poderá ofuscar as ideias com coisas claras…
Ora, mesmo de noite! Não vá amanhecer assim de repente…

Ficha artistica
Concepção/Instalação/ Performance – João Garcia Miguel e Andresa Soares
Produção – Traço na Paisagem e João Garcia Miguel Unipessoal Lda

1.teimosia
2. ruínas
3. palavras com rabinhos
4. a peça
5. obrigação
6. mais nada

ruinasEstamos a andar para trás a ver se conseguimos fazer com que nada se modifique. Nunca percebi muito bem porquê mas sempre fui do contra. Dá-me coisas não sei. Um prazer que se confunde com caminhar de gatas debaixo das mesas e beijar as pernas das mulheres. Se o mundo é feito de mudança eu quero fazer um espectáculo sobre as coisas que nunca mudam. Há coisas que nunca mudam: as pernas que se abrem e fecham quando caminhamos, eh eh eh, o fim, e as ruínas. Por isso estamos a fazer um espectáculo que é sobre as ruínas.
Em Ruínas sobrevoamos uma zona que vai desde a delimitação de fronteiras comuns de territórios distintos até à criação de uma novela da vida irreal que pretende inocular-se por entre os poros, veneno por debaixo da pele, trespassando os músculos e abrindo as veias até se alojar como lascas de metal, parafusos nos ossos desarticulados. Nada de muito significativo portanto, apenas mais uma mão cheia de lugares comuns. Não desejamos impressionar, nem expressar, nem ocultar, nem descobrir. Só desejamos fazer. Estão a perceber? Deixem lá que eu também não. Apostamos numa acção que metaforiza a compressão de tempos diversos de uma vida. Um momento qualquer que é como se fosse para sempre. O copo de água que estou a beber neste momento contém um gesto que foi já feito e que voltará a ser feito outra vez com o mesmo efeito e com as mesmas intenções. Então o que é que muda? O copo? A água? O corpo? Nós?
O texto teve como ponto de partida a ideia de um grupo de pessoas que se encontra perante uma porta e que não a conseguem transpor. A vida deles fica assim dependente de a porta se abrir por uma qualquer razão exterior à sua vontade ou de se manter assim fechada para sempre. A impossibilidade de consumar este gesto, o simples abrir de uma porta, condensa neles o tempo todo das suas vidas. O que se obtém é a descrição dos dramas íntimos de quatro personagens estranhamente ligados pela morte de uma criança. Os modos como cada um vive esse momento define-os e define as suas vidas em comum. A vida não se altera nós é que a olhamos de uma posição diferente. No texto está inscrito o que se diz e o que se pensa em simultâneo, sendo por vezes difícil, ou mesmo impossível, de separar as duas falas. Pelo meio estabelece-se uma consciência que se encolhe e que se alarga conforme os modos de vida que cada um decidiu para si. As palavras escondem-se dentro dos corpos como vermes com rabinhos a dar a dar.
Porém entre o texto e a peça existe um hiato. Um salto para um território em que os companheiros de jornada se multiplicam à velocidade dos dias que passam e das cumplicidades que o acaso estabelece. O texto chama-se a Caminho do Fim e a peça dá pelo nome de Ruínas. Uma relação curiosa que se estabelece entre caminhos e ruínas, entre corpos com vidas que se desfazem no caminho e as roupas que se usam para dar cor aos corpos. Saltos altos para tocar o céu e fazer buracos no chão para falar com os mortos e nos confessarmos dos pecados que ainda queremos fazer. Uma das personagens da peça diz o seguinte acerca da morte: “…quantas pessoas terei que matar até ser respeitada, até ser ouvida?! Eu já vos disse para fecharem a merda da boca. É por lá que entram os vírus… queria dizer da porta… da porta.” Na peça os personagens falam com eles com os outros e com os mortos deles e dos outros. Talvez seja por isso que a peça seja ao mesmo tempo didáctica e religiosa. Contínua e comprimida. Nem que seja por força das pedras que caiem e que lhes esmagam as caveiras, perdão queria dizer o crânio.
Escrevo porque me obrigam a fazê-lo, respiro porque o meu corpo o faz sem me perguntar nada, caminho porque me empurram, amo porque o meu corpo se estende, deliro porque não me aguento em pé, sofro porque sou um anão ao ombro de um gigante, entrego-me porque me falham as pernas para correr, escondo-me mas descobrem-me porque cheiro muito mal, tenho sede porque verto águas pelas juntas dilatadas, encolho-me para partir a espinha, não sei nada acerca das diferenças culturais, faço um testamento porque tenho inimigos, saboreio o sangue porque me partiram os dentes, caio porque me empurram, reproduzo-me porque sou vaidoso e porque há momentos estranhos em que nos empurram e que somos obrigados a pensar, obrigados a andar, obrigados a levantar voo.A caminho do fim, noite escura, ou ruínas?

João Garcia Miguel

Ficha artistica
encenação JOÃO GARCIA MIGUEL
texto JOÃO GARCIA MIGUEL E LUIS VIEIRA
cenografia e figurinosANA LUENA
música original ALEXANDRE SOARES
desenho de luz MÁRIO BESSA
elenco MÁRIO SANTOS, PEDRO MENDONÇA, LUCIANO AMARELO, ISABEL QUEIRÓS, MARTA GORGULHO
co-produção TEATRO BRUTO/TNSJ

A CHAMADAchamada
é um trabalho baseado em textos de Heiner Müller, uma viagem que se inicia na interrogação sobre as qualidades e características da visão qual órgão da imaginação, do EU que vejo tudo, e o que é que vejo, e é ao mesmo tempo sobre o amor, a dor de ter de matar diariamente, e a ingenuidade dos recomeços, sobre frutas maduras a cair das árvores e a fazer puuff, talvez seja também sobre o planeta que soluça e se sobressalte na direcção oposta e é de novo atraído por alguém ou alguma coisa ou empurrado pelo outro, que talvez seja um pássaro a bater as asas.

LIVING ON THE MIRROR, the man of the dancing steps it’s ME, the woman with a wound on the neck, at the right and left a torn bird in the hands, blood on the mouth, ME the bird, that with the peak’s writing show the killer the path to the night, Me the frozen storm.
Heiner Müller 1985

Ficha artistica
Texto  - Heiner Müller /João Garcia Miguel
Concepção - João Garcia Miguel
Interpretação - João Abel
Cenário - João Garcia Miguel

 

Motivaçãoasondas
As Ondas é uma co-criação entre a coreógrafa Clara Andermatt, o actor e encenador João Garcia Miguel e Michael Margotta, professor de teatro, encenador e director do Actor’s Center – Roma. 

Clara Andermatt teve a oportunidade de trabalhar com ambos, separadamente e em diferentes situações, sob o formato de workshops e residências. Os resultados foram estimulantes e produtivos,  levando-a a tomar a iniciativa de os convidar para desenvolverem um trabalho em conjunto, focado no teatro, na dramaturgia e na dança.
A peça tem como base o livro de Virginia Woolf As Ondas.

Percursos cruzados
O livro de Virginia Woolf conduziu-nos por entre os meandros da experiência interior e as dificuldades de uma colaboração artística profunda. Este trabalho é um primeiro nível de exposição de uma experiência laboratorial entre os nossos vários mundos. O enlaçar das áreas da dança, do teatro e da música não é recente nem particularmente inovadora. Mas para nós tem sido uma experiência que estendeu os limites dos nossos percursos individuais. O conhecimento do outro e a redefinição das compulsões criativas de cada um de nós têm sido abaladas ao longo deste processo. E são esses reconhecimentos as mais valias de uma profunda co-criação artística. O resultado deste trabalho é um círculo inacabado e imperfeito. “As ondas tombavam, retiravam-se e voltavam a cair”.                                                                                                
Clara Andermatt e João Garcia Miguel

As Ondas é um livro com seis personagens, ou melhor seis instrumentos musicais, pois consiste unicamente em monólogos interiores cujas curvas se sucedem e se entrecruzam com uma segurança que lembra a Arte da Fuga de Bach. Nesta narrativa musical, os breves pensamentos de infância, as rápidas reflexões sobre os momentos de juventude e de contagiante camaradagem desempenham o mesmo papel dos allegros nas sinfonias de Mozart, abrindo espaço para os lentos andantes dos imensos solilóquios sobre a experiência, a solidão e a maturidade. Tanto como uma meditação sobre a vida, As Ondas são um ensaio sobre a solidão. Trata-se de seis crianças, três raparigas, Rhoda, Jinny e Susan; e de três rapazes, Louis, Neville e Bernard, que vemos crescer, diferenciarem-se e envelhecer. Uma sétima criança, que nunca toma a palavra e que só conhecemos através dos outros, é o centro do livro ou melhor o seu coração.”                                                                                                              
Marguerite Yourcenar

Ficha artistica
Um projecto de Clara Andermatt | Co-criação Clara Andermatt, João Garcia Miguel, Michael Margotta | Interpretação Clara Andermatt, João Garcia Miguel | Composição Musical João Lucas | Músico Convidado António Pedro / Nuno Pessoa | Vídeo João Dias | Figurinos Aleksandar Protich | Espaço Cénico Clara Andermatt, João Garcia Miguel | Direcção de Cena Amélia Bentes | Direcção Técnica Carlos Ramos | Técnico de Som Gonçalo Brou | Design Gráfico Nuno Patrício | Produção Executiva (ACCCA) Pedro Patrício, Ana Santos | Assistente Estagiária Marta Vieira | Co-produção ACCCA, JGM, Câmara Municipal de Oeiras, O Espaço do Tempo (Convento da Saudação / Montemor-o-Novo) | Apoios Artistas Unidos, Sennheiser


Uma peça de teatro baseada nos Diários de Andy Warhol ... ESPECIAL NADA ... O programa de televisão que Warhol nunca teve mas sempre quis ter…Pop Art, Televisão, o Quarto de Warhol, entrevistas, sessões de maquilhagem e REVELAÇÕES INTIMAS.

Quinze Minutos Infinitos
Por Alexandre Melo
Andy Warhol é talvez o autor que melhor corporiza a deslocação histórica do estatuto da práctica artística. É na imensa diversidade das conexões sociais e culturais da sua obra que podemos encontrar a explicação para o facto de os Quinze Minutos de Fama parecerem tender, cada vez mais, a eternizarem-se. A obra de wahrol permite, de igual modo, levar a problematização das relações entre arte e economia nas sociedades contemporâneas a limites que até então não tinham sido questionados. Referimo-nos ao processo que torna possível a transformação de uma banal imagem extraída dos meios de comunicação social numa obra de arte, e ao processo que conduz à substituição do suposto talento inerente à mão do artista pela simples referência a uma assinatura – reportável ao nome e à marca de um autor – que garante a ligação a uma determinada personalidade e respectivo carisma.  A intensidade de circulação mediática do nome corresponde a intensidade de circulação económica dos seus produtos: “Business art is the step that comes after art" – podemos ler em The philosophy of Andy Warhol (From A to B and back again) - . Mas existe em Warhol uma ambiguidade política, a qual se transforma numa das fontes de poder do seu trabalho: não sabemos se estamos perante uma apologia incondicional dos valores  do dinheiro, da fama e do sucesso, ou se estamos perante uma denúncia demolidora. A registar, um duplo movimento de nivelamento e contaminação: da excepcionalidade à banalidade, da banalidade à excepcionalidade – Marilyn igual a uma lata de sopa. Uma lógica de desdramatização…demasiado requintada e fria para corresponder plenamente ao gosto das massas, demasiado banal e apelativa para satisfazer os padrões estéticos das elites tradicionais.

Ficha artistica
Concepção e direcção: João Garcia Miguel
Interpretação: Anton Skrzypiciel / Luís Vieira
Video: João Dias
Musica: Vítor Rua
Direcção técnica: Edgar Alberto

Blog de: Especial Nada - http://Especial-nothing.blogspot.com/

 
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